Duas batidas de leve a minha porta principal, madeira. A porta é de madeira importada (dessas caríssimas), peço pra identificar-se. Então doutro lado escuto uma voz doce que diz:
-é a borboletinha (fantasiada de mosca)
Eu, monstro, fingindo ser outra coisa qualquer pergunto:
-o que é que tu queres ô nobre e adorável ser?
E a voz doce de borboletinha que parece te levar proutro mundo responde:
-quero meu monstrinho, ele está?
Eu, monstro, de humor inacreditavelmente variável derreto-me inteiro por dentro, mas por questões maiores questiono:
-está sim, mas o que é que tu queres com ele?
Aqui deste lado da porta, assim encostado posso sentir que o coração da borboleta começa a bater mais rapidamente e então ela com sua doce voz responde:
-dançar!
Abro a porta, e vejo aquela borboletinha com alguns apetrechos de mosca parada ali então pergunto:
-quer dizer que tu queres dançar?
-dançar? Não, o que eu quero contigo é mais que isso, bem mais. - E ela falou isso como quem diz: Quero estar do teu lado de dentro assim como estás no meu. Na pedra, no buraco, chame do que quiser ele é teu, mas me deixa ser dona da tua pedra? Do teu, como disseste tantas vezes antes, "buraco negro"? Crescer em ti assim como tu cresceste em mim, sem projeções, sem brilhos falsos, mas também sem obrigar-te a abrires todas as portas e janelas pra que eu seja livre, ou sem que eu faça o mesmo para que tu sejas livre. – Mas falou apenas isso "O que eu quero contigo é mais que isso, bem mais”.
E ao ver a cara do monstro, a cara de perdido, de quem não compreende o que está acontecendo acrescentou:
- Não sou um humano, e tenho apenas 24 horas de vida, por esta razão fantasio-me de mosca, pra que o seu amado Bog que reina o mundo dos altimundos, não me tire a vida tão rapidamente, não me faça ter que reconquistar todas as regalias que eu já havia conquistado no dia anterior, me fantasio então, pra não te perder, com o perigo de não me lembrar de ti, o que creio que mesmo depois de trocar minha alma perdida de borboleta sem rumo de um corpo já em processo de decomposição devido ao sistema natural do meu ser não acontecerás, meu medo é que você esqueça de mim, se perca pelo caminho, vá para outros lugares, encontre novos corpos.
[O monstro mesmo depois de todo esse discurso falado-não-falado, que se diz apenas com o olhar, ficou sem compreender].
- O que queres me dizer com isso? Tu me deixas deveramente confuso, talvez tu sejas a felicidade que esta bem ao meu lado e somente eu não posso ver, mas não! Felicidade esta dentro, e não ao lado, o caminho para felicidade é in. Não off. Eu me desgasto todos os dias pensando e pensando em coisas inúteis, como porque continuamos aqui, sem pedir nada, sem falar nada, com as mesmas brincadeiras, os mesmos gestos, e tantas incompreensões. A única magia que existe é estar vivo, mesmo que não possamos compreender nenhuma dessas coisas quem vão alem, do que nós sentimos. O tal mundo das emoções.
-Talvez eu não saiba, ou eu sei exatamente o que é, mas não tenho coragem, de seguir o processo, quem sabe o maldito medo do não, sabe? Esse mesmo que nos paralisa; faz-nos ficar, sem tentar nada, sem pedir nada, sem ser nada. Apenas ficamos, e muitas vezes perdemos tudo aquilo que realmente amamos.
O mostro continuou ali, parado, bobo, com aquela carinha tristonha de monstro que fazem monstruosidades, mas querem ser bons, ou que um dia já o foram. Ficou ali, parado, pensando se devia ou não correr para os braços e abraços da sua borboletinha.
E então não foi, afinal, era monstro. E ninguém pode compreender um monstro, seja por seu humor variável, seja pelas suas monstruosidades. Monstros são monstros em qualquer lugar do mundo.
Ficou ali parado, olhando atentamente par cada movimento da borboleta.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
segunda-feira, 17 de março de 2008
"Está tudo planejado: se amanhã o dia for cinzento, se houver chuva ou se houver vento, se eu estiver cansado dessa antiga melancolia, cinza fria sobre as coisas conhecidas pela casa, a mesa posta e gasta. Está tudo planejado: apago as luzes, no escuro e abro o gás de-fi-ni-ti-va-men-te. Ou então visto minhas calças vermelhas e procuro uma festa onde possa dançar rock até cair."
[Caio Fernando Abreu]
[Caio Fernando Abreu]
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