"Naquela manhã, porém, o enigma do livro no pão doce não foi a única coisa que ocupou meus pensamentos. Aliás, mais do que isso, uma outra coisa colaborava para aumentar a inquietação que eu vinha experimentando: entendi, de repente, que as pessoas no mundo inteiro eram tão desligadas das coisas que as cercavam quanto os indolentes anõezinhos da ilha mágica.
Vivemos nossas vidas num incrível mundo de aventuras, pensei. Apesar disso, a grande maioria das pessoas considera tudo isso "normal". Em compensação, vivem em busca de algo fora do normal: anjos ou então marcianos. E isso se explica pelo simples fato de que elas não consideram um enigma o mundo em que vivem. Para mim a coisa era completamente diferente. Para mim, o mundo era um sonho muito estranho, e eu vivia em busca de uma explicação racional qualquer para esse sonho.
E enquanto fiquei parado ali, observando o céu ir mudando de cor, primeiro cada vez mais vermelho, e depois cada vez mais claro, experimentei uma coisa que jamais havia experimentado antes; um sentimento que desde então nunca mais me deixou: lá estava eu na frente da janela da cabine de um navio, eu, um ser enigmático, vivo, mas que apesar disso nada sabia de si. Experimentei a sensação de ser uma criatura viva num planeta vivo dentro de uma Via Láctea. Talvez já tivesse consciência disso antes, pois esse era um tema que já tinha sido abordado várias vezes dentro da educação que eu vinha recebendo. Mas aquela era a primeira vez que eu sentia aquilo tudo por mim mesmo. E aquele sentimento se instalou em cada célula do meu corpo.
Percebi meu corpo como algo estranho, desconhecido. Como era possível que eu estivesse ali, na cabine de um navio pensando todas aquelas coisas estranhas? Como é que no meu corpo cresciam a pele e as unhas? Tudo isso para não falar dos dentes! Como era possível que esmalte e marfim pudessem crescer dentro da minha boca? Eu não conseguia entender que essas partes duras do meu corpo eram eu mesmo. Mas sobre essas coisas... bem, sobre essas coisas as pessoas só pensavam quando tinham de ir ao dentista!
Não conseguia entender como as pessoas conseguiam viver neste mundo sem se perguntarem, ao menos de vez em quando, quem eram e de onde tinham vindo. Como era possível fechar os olhos à vida neste planeta, ou então considerá-la "evidente"?
Os muitos pensamentos e sentimentos que tomaram conta de mim naquele momento deixavam-me alegre e triste ao mesmo tempo. Eles eram os grandes culpados por eu experimentar de repente uma sensação de solidão profunda; ao mesmo tempo, de alguma forma eu sabia que aquela solidão só podia me fazer bem.
Apesar de tudo, fiquei contente ao ouvir meu pai se espreguiçar e soltar um daqueles seus bocejos que mais parecem o rugido de um leão. Antes de ele saltar da cama, ainda tive tempo de refletir um pouco sobre como é importante ter os olhos bem abertos para tudo, mas que não existe nada mais importante do que estar na companhia de alguém que a gente ama."
sábado, 30 de outubro de 2010
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Cada vez mais lento eu derramava meus passos sob aquela noite fria.
Cada passo revelava uma vontade, um drama, uma saudade.
cada passo revelava um pedaço de mim.
Esses passos bebados que só me levam a um destino
Esses passos mal guiados que cedem facílmente a qualquer travessura do destino
só me mostram o que eu sempre soube:
Ser sozinho rende o mundo,
mas me parece tão pequeno...
Cada passo revelava uma vontade, um drama, uma saudade.
cada passo revelava um pedaço de mim.
Esses passos bebados que só me levam a um destino
Esses passos mal guiados que cedem facílmente a qualquer travessura do destino
só me mostram o que eu sempre soube:
Ser sozinho rende o mundo,
mas me parece tão pequeno...
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
— Mulher sem homem acaba tão complexada, tão infeliz. Com homem também, tenho ganas de dizer-lhe e dar-lhe o capulho na mão.
— Complexada porque todo mundo fica enchendo a sacola. Não é o caso da Lorena, não estou mais pensando nela, estou pensando só nisto, já é tão difícil crescer, ser amado por aquele que a gente ama. E tem que vir alguém determinar o sexo do amor.
— Complexada porque todo mundo fica enchendo a sacola. Não é o caso da Lorena, não estou mais pensando nela, estou pensando só nisto, já é tão difícil crescer, ser amado por aquele que a gente ama. E tem que vir alguém determinar o sexo do amor.
Mastigo mais um bombom.
— Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera mas com o sexo do próximo? Cuide do próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse.
— Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera mas com o sexo do próximo? Cuide do próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse.
— Mas não quero resposta, quero ficar só. Gosto muito das pessoas mas essa necessidade voraz que as vezes me vem de me libertar de todos. Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta fera ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentos e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, aluo todos os portões e quando vejo a alegria esta instalada em mim.
— Deixa então só o Che mas repense sobre Luther King. Antigamente a santidade era vista como o máximo da penitência, caridade, aquilo que você sabe. Mudou tudo. Hoje um cristão não pode alcançar a salvação da alma sem servir objetivamente à sociedade. Não sei explicar, mas todo aquele que luta com plena consciência para ajudar alguém em meio da ignorância e da miséria, todo aquele que através dos seus instrumentos de trabalho, do seu ofício der a mão ao vizinho, é santo. Os caminhos podem ser tortos, não interessa. É santo.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
— Na minha casa tem um relógio igual.
— Você tem saudade, Lia?
— Não sei explicar, mas lá é como este café adocicado e quente. Minha mãe chegava a me abafar com tanto amor, preferia às vezes que me amasse menos. O velho disfarçando com carrancas, tios e tias estourando por todos os lados com os batalhões dos primos. Aconchegos, festinhas. Lembro de todos, amo todos mas não tenho vontade de voltar. Isso é saudade? Foi um período que se encerrou. Aqui começou outro e agora vai começar um terceiro período e então fico com esses dois períodos pra lembrar. Será saudade?
— Você tem saudade, Lia?
— Não sei explicar, mas lá é como este café adocicado e quente. Minha mãe chegava a me abafar com tanto amor, preferia às vezes que me amasse menos. O velho disfarçando com carrancas, tios e tias estourando por todos os lados com os batalhões dos primos. Aconchegos, festinhas. Lembro de todos, amo todos mas não tenho vontade de voltar. Isso é saudade? Foi um período que se encerrou. Aqui começou outro e agora vai começar um terceiro período e então fico com esses dois períodos pra lembrar. Será saudade?
(...)horrível pensar isso mas agora já pensei e estou pensando ainda que se Deus não está lá é porque deve ter suas razões.
— Ah. Sou um monstro. Monstro. Queria tanto ser diferente, mas queria tanto.
E esta vocação para a mesquinharia. Ai meu São Francisco, minha Santa Teresa, son tan escuras de entender estas cosas interiores.
— Ah. Sou um monstro. Monstro. Queria tanto ser diferente, mas queria tanto.
E esta vocação para a mesquinharia. Ai meu São Francisco, minha Santa Teresa, son tan escuras de entender estas cosas interiores.
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