quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Carta para além do crepúsculo.
Já faz tanto tempo. Já faz tanto tempo e basta que meu pensamento chegue perto de qualquer coisa que lembre você pra eu perca o jeito, perca a fala, perca o sono, já faz tanto tempo e eu ainda quero muito que você seja a minha paz porque você foi , você é. Já faz tanto tempo e eu ainda quero você do meu lado na cama pra me fazer carinho antes de dormir, ainda quero descobrir lugares incríveis com você, ainda quero segurar a tua mão, ainda quero sentir o teu bafo quente enquanto o sol diz bom dia, ainda quero dizer eu te amo, ainda quero ouvir eu te amo, ainda quero todas essas coisas que a gente quer quando ama alguém. Mesmo que seja quase dezembro, um ano depois, e eu mal te conheça.
É por você que minha mão procura quando passeia pelo lado vazio da cama. Continuo vendo você através de cada gesto alheio, através também de gestos meus. Continuo a te procurar atrás de cada corpo, de cada copo, e até atrás de cada folha. Eu não te vejo, não sei de ninguém que te vê, não peço de você, não por ser orgulhosa, mas por isso ser meio chato mesmo. Seria bom se você ligasse, mandasse noticia, qualquer coisa assim, banal. Que as pessoas fazem quando não resta mais nada num domingo à tarde. Seria bom, seria bom se você enfiasse essa porcaria desse orgulho no lixo e dissesse "me deu saudade, eu liguei pra ouvir a tua voz" mesmo que isso seja uma mentira completa. Porque agora, mais do que nunca, eu sou capaz de compreender e aceitar que eu errei.
Eu queria poder começar tudo de novo, talvez fosse diferente, talvez fosse exatamente igual, mas dessa vez, eu não deixaria de ligar, eu cuidaria melhor de você, de nós. Até de mim. Eu queria te dizer essas coisas, mas agora, é tarde demais.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Pela noite (trechos)
O outro fez um movimento como se fosse falar, mas ele o deteve.
- Sei, sei. Você vai perguntar: mas houve um erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende?
No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que errou? Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. Talvez tenha demonstrado demasiada ansiedade, eu penso. E a coisa se assustou, então. Como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. Não aconteceria com outro. Depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. Que era um bicho, um bichinho desses ariscos. Coelho, borboleta. Um rato. É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão de eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.
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- Mas as manhãs são péssimas. Eu nunca vejo as manhãs. Eu sinto um humor nazista de manhã. - Pérsio fez um risco no vidro. Depois outro, cortando o primeiro, com um grande X. - Talvez seja esse o problema. Uma vida sem manhãs. Estranho é que não escolhi. Não consigo precisar o momento em que escolhi. Nem isso, nem qualquer outra coisa, nem nada. Foram me arrastando. Não houve aquele momento em que você pode decidir se vai em frente, se volta atrás, se vira à esquerda ou à direita. Se houve, eu não lembro. Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui. Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer, O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer.
- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.
- A coisa ou a pessoa?
- As duas.
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DÉCIMO SEGUNDO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
XI. Virgínia
Para isso estávamos ali, em teste. Sem passado nem futuro, suspensos. Mas a mim não importava o que se fora. Queria o passo à frente. Além ainda de inesperadas sinastrias, bizarras quadraturas das quais vinha tentando inutilmente avisá-los tanto tempo antes. Respeitavam a isso que chamam de minha “loucura’ mas solicitavam-me às vezes, pobremente, quando seus amores se complicavam, quando seus bens se perdiam, ainda que cinco minutos depois já não lembrassem minhas palavras. Que talvez não sejam definitivas, mas buscam sempre por essa região que entre a larva e a borboleta acontece num segundo no interior da crisálida para anunciar um próximo e possível vôo numa vida que não durará mais que um dia, de tão perfeita se armou. Porque não quero voltar outra vez a este plano de movediços terrenos enganosos. Sei bem de mim que, quando o sol encontrar novamente meu sol, talvez no próximo verão, também estarei partindo. Completa.
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DÉCIMO PRIMEIRO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
X. Júlio
Se alguém quiser saber por que, direi novamente: não fui eu quem mentiu, mas uma parte de mim, e se quiserem perguntar também a essa parte de mim que desconheço quase tanto quanto vocês, se eu conseguisse localizá-la para trazê-la com cuidado à tona, sem que ameace tomar o controle de tudo, talvez ela dissesse: porque o verão está no fim, porque na verdade não nos conhecemos, porque nada do que acontecia aqui, rituais, levezas mentirosas, até que minha mentira nos ameaçasse aconteceria realmente se minha mentira não fosse verdade e nada tivéssemos a defender além da verdade inteira de um próximo momento mais verdadeiro que aquele. Mesmo medonho. Baixei a cabeça quando sem pretender fui forçado a dizer assim, cínico talvez, mas absolutamente passível de perdão, embora não necessitasse dele, porque de alguma forma havia feito exatamente o que me fora destinado fazer, ainda que para isso um eu desconhecido precisasse tomar o comando de mim e disse então, olhando nos olhos de um por um dos outros oito: foi por Amor que menti.
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NONO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
SÉTIMO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
SEXTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
QUINTO FRAGMENTO DA DÉCIMA TERCEIRA VOZ
Quarto fragmento da décima terceira voz
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Não sou herói do mundo dela, nem do meu próprio mundo...
@O livro sem nome - Anônimo incógnito.
domingo, 20 de setembro de 2009

Sentada sob a janela entreaberta eu fico a sentir o cheiro de jasmim invadir meu quarto, enquanto o sol se põe e sob minhas costas a noite cai, eu fico observando a fumaça encontrar tão aos poucos o móbile de estrelas, aquele mesmo que eu fiz pensando em ti, a fumaça o invade lentamente sem que isso seja algo ruim. Mais ao fundo tem um emaranhado de fios, eu sempre, sempre, sempre perco o foco e me descubro analisando-os, atentamente e sempre descubro que todos têm seu inicio e fim, mas o que prende minha atenção é sempre o emaranhado, eu sempre, sempre, sempre perco o foco no emaranhado. A fumaça ainda invade lentamente o espaço das estrelas perfumando o ar com jasmim recém floridas. A brisa lenta que invade o quarto embala as estrelas como uma mãe embala seu recém nascido, tranquila. O cheiro, esse cheiro, esse cheiro refresca minha memória, mas eu não quero lembranças. Agora não, tudo que eu quero agora é continuar aqui parada, pateta, ridícula, vazia, esperando que essa maldita fumaça me transmita alguma paz, do mesmo jeito que você costumava fazer.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
como se fosse
Como se fosse noite, como se fosse julho, como se fosse frio, como se fosse ontem, como se fosse bom, como se fosse uma decisão, como se fosse fácil, como se voltasse no tempo e pudesse fazer tudo de um novo jeito, do jeito certo, mesmo que certo e errado não existam.
Como se fosse dia, como se fosse janeiro, como se fosse férias, como se fosse hoje, como se fosse bom, como foi a primeira vez.
Como se pudesse simplesmente apagar esse dia e os que seguiram da memória sem que o que ocorreu deixasse algum rastro, uma marca profunda. Como se fosse madrugada, como se fosse janeiro, como se fosse férias como se fosse festa, como se fosse quente, como se fosse ruim, como se doesse, como se a lua estivesse cheia, como se aquele pedido fosse fazer alguma diferença, pra ela.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Uma historia de corações
Procede-se porem que este coração que acabo de vos apresentar encontrou outro coração que se encaixa perfeitamente a ele, mas devo alertar-lhes que este é um tipo de coração também muito difícil de lidar, difícil porque embora tenha certa fragilidade tem medo de admiti-la, este coração que agora vos falo é de pedra, bruta e por vezes fria esquecendo quão boa é a sensação de estar quente, mas ainda assim encaixava-se perfeitamente a parafina.
O que se sucedeu, embora ninguém possa ter absoluta certeza quanto à data, tudo que se sabe a respeito é que como não eram descartáveis estes corações resolveram se juntar para que um encaixa-se no outro, sendo assim perfeitos um para o outro, porem essa perfeição provocara no vale olhares curiosos e invejosos de outros coraçõeszinhos solitários que por ali habitavam, o que ocorrera depois foi que a todo custo tentaram separar aqueles dois corações de encaixe perfeito foi quando um brilhante cabeça oca ateou fogo sobre os corações, com o intuito de derreter a parafina para que esta fosse embora, porem como já lhes disse era mesmo um cabeça oca que o fizera e para sua surpresa a parafina agarrou-se a pedra dizendo que nada nunca poderia separa-las mesmo sobre a dor de estar derretendo, e esta dor cegou-a de um modo que não via o que estava fazendo, quando tudo se acalmou e todos puderam ver claramente o que acontecera: o cabeça oca frustrou-se pois sua tentativa de separar a pedra e a parafina só serviu pra que elas se unissem ainda mais, agora tínhamos uma pedra envolvida por parafina, o que podemos considerar, um só coração.
Duas almas, apenas um coração, Meu coração, teu! Teu coração, meu! A ordem agora já não tem importância.
*Qualquer semelhança com a realidade é mera 'coincidência'*