terça-feira, 30 de setembro de 2014

Das cartas que não foram entregues.

Me perdoe a falta de lógica na escrita, ando com a cabeça fora de órbita. Eu realmente não deveria lhe responder, e não vou fazê-lo diretamente pois você sabe aonde encontrar as respostas que quer de mim... 
Sobre seu pagamento de pecados: o inferno realmente é aqui na terra e todos os humanos estão fadados a encarar as consequência dos atos. Efeito colateral existe e nem sempre é do nosso agrado. 
Que amor só é amor quando é eterno eu concordo mas não é bonito quando amor também tem um quê de abandono e decepções, não que o nosso tenha sido só isso mas tanto eu quanto você tivemos nossos dias de polo negativo. Eu sou e serei eternamente grata pelos nossos dias felizes. Pelos tristes também, ao menos estes servem de ensinamento. Saber separar liberdade de libertinagem é uma coisa muito importante e muito complicada. Ninguém ensina essa pira de amor livre. Eu também não sei. Cada um tem seu tempo e seu jeito de se matar. Outra coisa que queria poder dizer é que você foi meu primeiro amor e ninguém nunca vai ser capaz de arrancar isso de você, nem de mim. E isso talvez seja um fardo muito grande que eu e você carregamos.
Sem mais, despeço-me lhe desejando boas vibrações afinal somos apenas um pequenino pedaço de matéria vagando pelo universo. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

A viajante

Com franqueza, não me animo a dizer que você não vá.
Eu, que sempre andei no rumo de minhas venetas, e tantas vezes troquei o sossego de uma casa pelo assanhamento triste dos ventos da vagabundagem, eu não direi que fique.
Em minhas andanças, eu quase nunca soube se estava fugindo de alguma coisa ou caçando outra. Você talvez esteja fugindo de si mesma, e a si mesma caçando; nesta brincadeira boba passamos todos, os inquietos, a maior parte da vida - e às vezes reparamos que é ela que se vai, está sempre indo, e nós (às vezes) estamos apenas quietos, vazios, parados, ficando. Assim estou eu. E não é sem melancolia que me preparo para ver você sumir na curva do rio - você que não chegou a entrar na minha vida, que não pisou na minha barranca, mas, por um instante, deu um movimento mais alegre à corrente, mais brilho às espumas e mais doçura ao murmúrio das águas. Foi um belo momento, que resultou triste, mas passou.
Apenas quero que dentro de si mesma haja, na hora de partir, uma determinação austera e suave de não esperar muito; de não pedir à viagem alegrias muito maiores que a de alguns momentos. Como este, sempre maravilhoso, em que no bojo da noite, na poltrona de um avião ou de um trem, ou no convés de um navio, a gente sente que não está deixando apenas uma cidade, mas uma parte da vida, uma pequena multidão de caras e problemas e inquietações que pareciam eternos e fatais e, de repente, somem como a nuvem que fica para trás. Esse instante de libertação é a grande recompensa do vagabundo; só mais tarde ele sente que uma pessoa é feita de muitas almas, e que varias, dele, ficaram penando na cidade abandonada. E há também instantes bons, em terra estrangeira, melhores que o das exitações e descobertas, e as súbitas visões de belezas sonhadas. São aqueles momentos mansos em que, de uma janela ou da mesa de um bar, ele vê, de repente, a cidade estranha, no palor do crepúsculo, respirar suavemente como velha amiga, e reconhece que aquele perfil de casas e chaminés já é um pouco, e docemente, coisa sua.
Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra e nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde - torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem. Mas então as bobagens do estrangeiro não rimam com a gente, as ruas são hostis e as casas se fecham com egoísmo, e a alegria dos outros que passam rindo e falando alto em sua língua dói no exilado como bofetadas injustas. Há o momento em que você defronta o telefone na mesa da cabeceira e não tem com quem falar, e olha a imensa lista de nomes desconhecidos com um tédio cruel.
Boa viagem, e passe bem. Minha ternura vagabunda e inútil, que se distribui por tanto lado, acompanha, pode estar certa, você.