Escrevi a algum tempo atrás pra, bom... Pra talvez me livrar da dor que eu sentia que eu não sei até hoje se é dor de falta ou dor de "se"...
Era agosto e eu passei agosto inteiro esperando por setembro assim como passaria também setembro inteiro esperando outubro e assim continuamente ao longo dos doze meses que viriam pela frente. Já era algo corriqueiro nos meus dezesseis quase dezessete anos de vida. Agosto era um mês fácil de atravessar, diferente de setembro, para atravessar setembro era preciso muita paz de espírito, talvez assim fosse pelas memórias doloridas de inicio de primavera e também da temporada do clube e que agora, sem Renan, não tinha mais o menor sentido. Todas aquelas pessoas ao meu redor, aquelas que também faziam parte da vida de Renan, me botavam medo, angustia, desespero, pois elas pareciam ter uma vida normal, mesmo que sem Renan, o que eu não conseguia. Sentia-me sempre, depois que Renan partirá, sem um porto, sem um norte, sem sentido, não prestando atenção em nada, olhava para tudo com tanto desdém e meus olhos já não brilhavam. Parecendo sempre estar dentro de uma bolha flutuando sem parar, não via magia alguma em lugar algum, sempre fria, bruta, infeliz por dentro e por fora. Eu atravessava esses meses que aos poucos, tão lentamente se transformavam em bimestres escolares, trimestres empresariais, semestres de cursinho, inglês e aulas extras; e tão aos poucos se transformavam em anos, que se arrastavam e sem Renan, não pareciam passar. E eu tão pateticamente continuava ali no meio daquele mofo, daquela bolha, sem Renan, mas com tudo que um dia já fora dele. Às vezes, eu sentia seu cheiro e via partes que eram dele, nos outros, e quando acontecia isso me doía, meu calo latejava loucamente, assim como todas as cicatrizes latejam em dias chuvosos de agosto, ao longo desse lento e arrastado pouco mais de ano e meio e dos tantos mais que viriam sem Renan temo que a lembrança do seu rosto, corpo, alma e gigante coração desapareçam de mim.
... Talvez nós só estivéssemos assustados, assustados demais pra perceber que a dor não é da perda e sim do susto porque a gente sabe que um dia ou outro vai perder.
Talvez a gente só tenha crescido e a vida foi nos levando pra longe das brincadeiras que agora achamos sem graça. Mas ainda assim aqueles primeiros dias, meses, momentos sem ele atormentavam bastante.
Ou talvez ele fizesse mesmo essa falta enorme.