Julho de doismiledezesseis e tudo que eu podia pensar era na falsa sensação de abandono que habitava meu ser. Confusa, inconstante, bêbada e com maltratos do sentir. Eu sempre odiei julho, é o mês mais frio por essas bandas. A geada mata a pouca vida que ainda habita meu quintal, mas nesse julho me mantive aquecida com o fogo que habita teu olhar, menina moça forasteira. Não fosse o coração dilacerado de tanto entender errado as intenções das pessoas, fantasiar demais sobre tudo que poderia ter sido, nunca teria te tirado pra dançar. A dança das fumaças se misturando pra virar uma nuvem só. Uma nuvem pode se tornar metáfora pra tanta coisa, mas nuvens carregam energia, som, luz e reticências.
Ouvi outro dia em uma canção que cigarros são poemas pra quem nunca sabe o que falar, quem disse isso nunca cruzou com teu olhar. Então poeme-se, menina moça da alma bonita.
Outro dia podia fumar lá fora, o fora de dentro, treme chão, e o som da banda estava tão alto que era impossível ouvir todas as palavras que pronunciava, então pra tentar te compreender me detive atenta a cada movimento da tua boca. Tua boca, aqui do outro lado da mesa parece uma mistura de todas as que já beijei, o formato da tua bochecha e do sorriso se armando segue a mesma linha de quem a pouco eu muito amei. Posso me confundir entre o que é você e o que eu inventei mas de uma coisa eu tenho certeza: nos teus caixinhos bagunçados eu perco a linha e viro reticências...